quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

ESTOICISMO: PARTE 1 - CAPITULO 3

Estoicismo Romano



Os mais importantes dos Estóicos Romanos - e dos Estóicos de quem, acredito eu, indivíduos modernos tem mais a aprender - foram Sêneca, Musônio Rufo, Epiteto, e Marco Aurélio. As contribuições que estes quatro fizeram ao Estoicismo Romano são bastante complementares. Sêneca foi o melhor escritor deste grupo, e seus ensaios e cartas para Lucílio formam uma introdução bem acessível ao Estoicismo Romano. Musônio é notável por seu pragmatismo: Ele ofereceu conselhos detalhados sobre como praticantes do Estoicismo deveriam comer, o que deveriam vestir, como se comportar em relação a seus parentes, e até mesmo como deveriam conduzir suas vidas sexuais. A especialidade de Epiteto foi a análise: Ele explicou, entre outras coisas, por quais motivos a prática do Estoicismo pode nos trazer a tranquilidade.


Finalmente, nas Meditações de Marco Aurélio, escritas como uma espécie de diário, entramos na privacidade de um Estóico praticante: Assistimos suas procuras por soluções Estóicas para os problemas da vida diária assim como para os problemas que ele encontrou como imperador de Roma.


Lúcio Aneu Sêneca, também conhecido como Sêneca o Jovem, nasceu em algum momento entre 4 - 1Ac. em Córdova na Espanha.

Apesar de termos mais de seus escritos filosóficos do do que temos de qualquer outro Estóico, ele não era o mais prolífico deles. (Crisipo foi marcantemente prolífico, mas suas obras não sobreviveram.) Ele também não era o mais original. Mesmo assim seus escritos Estóicos foram bem impressionantes. Seus ensaios e cartas são cheios de observações sobre a condição humana. Nestes escritos, Sêneca fala a respeito das coisas que tipicamente fazem as pessoas perderem a alegria - como o luto, a raiva, a velhice, e ansiedades sociais - e sobre o que podemos fazer para tornar nossa vida não apenas tolerável mas alegre.

Sêneca, como os outros Estóicos Romanos que discutiremos, não era estoicamente conformado com a vida; pelo contrário, era um participante ativo dela. E como outros Estóicos, foi um indivíduo complexo.


Na verdade, mesmo se Sêneca nunca tivesse escrito uma palavra sobre filosofia, teria mesmo assim entrado para os livros de história por três outras razões. Ele poderia ser lembrado por ter sido um dramaturgo de sucesso.

Também poderia ser lembrado por seus empreendimentos financeiros: Ele parece ter sido o protótipo de um banqueiro de investimentos que se tornou enormemente rico em grande parte por causa de sua perspicácia financeira. E finalmente, ele poderia ser lembrado pelo papel que desempenhou na política de Roma no primeiro século; além de ser um senador, ele foi tutor e subsequentemente o principal conselheiro de Imperador Nero.

O envolvimento de Sêneca com a corte imperial lhe causou problemas. Quando Claudius se tornou imperador, condenou Sêneca a morte por (alegadamente) cometer adultério com a sobrinha de Claudius, Júlia Livilla. A sentença foi comutada em banimento e confisco de todas as suas propriedades, então no ano de 41, Sêneca então por volta de seus 40 anos, foi mandado para a “rocha estéril e espinhosa” que chamamos de Córsega. Durante este período, ele leu, escreveu e fez um estudo sobre a ilha - e presumivelmente praticou o Estoicismo.

No ano de 49, Agrippina se casou com Claudius e o convenceu a trazer Sêneca de volta do banimento para que pudesse agir como tutor de seu filho Nero, que tinha 11 ou 12 anos. Então após 8 anos de banimento, Sêneca retornou  a Roma.

Novamente entre a sociedade romana, ele se tornou, como sabemos, “O mais renomado cidadão de seu tempo: o maior escritor vivo sobre prosa e verso, o maior nome da literatura, desde a era dourada no início do século, e o favorito da imperatriz imperiosa.” Sêneca ficou surpreso como qualquer outro sobre seu sucesso na vida: “Sou eu,” ele perguntou, “nascido no estado de um simples cavaleiro e provinciano, que estou entre os magnatas do reino?”

Quando Nero se tornou imperador, Sêneca foi promovido ao cargo de conselheiro. Ele e Sextus Afranius Burrus, o prefeito da Guarda Pretoriana, se tornaram o círculo secreto de Nero. A princípio, Sêneca e Burrus fizeram um bom trabalho em manter as tendências licenciosas de Nero sob controle, e o império Romano aproveitou 5 anos de bom governo. Sêneca também floresceu nesse período: Ele se tornou incrivelmente rico. Esta riqueza  deu margem a acusação de que Sêneca era um hipócrita, que advogava as restrições Estóicas enquanto vivia uma vida de extrema abundância. Os leitores devem manter em mente, então, que ao contrário do Cinismo, o Estoicismo não requer que seus seguidores adotem um estilo de vida ascético. Ao contrário, os Estóicos pensavam que não existe nada de errado em aproveitar as boas coisas que a vida tem a oferecer, contanto que eles sejam cuidadosos na maneira com que se aproveitem destas coisas. Em particular, devemos estar prontos para abrir mão das coisas boas sem arrependimento caso as circunstâncias mudem.

Após a morte de Agrippina em 59 - Nero a matou - Nero começou a se desviar das conselhos de Sêneca e Burrus. Em 62, Burrus morreu, talvez por doença ou por ter sido envenenado. Sêneca percebeu que seus dias na corte estavam contados, e tentou se aposentar da política, alegando pouca saúde e idade avançada. Nero finalmente concordou em deixá-lo se aposentar, mas a aposentadoria foi curta. Os conselheiros que substituíram Sêneca convenceram Nero de que Sêneca estava envolvido em uma conspiração contra ele, e em 65, Nero ordenou a morte de Sêneca.

IMPERADOR NERO

Quando os amigos que estavam presente em sua execução lamentaram seu destino, Sêneca os castigou. O que, ele perguntou, aconteceu com o Estoicismo de vocês? Ele então abraçou sua esposa. As artérias em seus braços  foram cortadas, mas por causa de sua idade e enfermidade, ele sangrou lentamente, então as artérias de suas pernas e joelhos também foram cortadas. Ele mesmo assim não morreu. Ele pediu então a um amigo para trazer veneno, que bebeu sem consequências fatais. Ele foi então levado a um banho, cujo qual o sufocou.
O ensaio de Sêneca “Sobre uma Vida Feliz” foi escrito para seu irmão mais velho Gallio - o mesmo Gallio, por curiosidade, que foi mencionado em Atos 18:12 - 16 do Novo Testamento por sua recusa em julgar São Paulo em Coríntio. Neste ensaio, Sêneca explica como buscar a tranquilidade. Basicamente, precisamos utilizar nossa habilidade de raciocínio para afastar “tudo que excita ou nos aflige.” se pudermos fazer isto, então se seguirá “uma tranquilidade inquebrável e uma liberdade duradoura,” e iremos experienciar “uma felicidade sem limites firme e inalterável.” Na verdade, ele alega ( como já observamos) que alguém que pratica os princípios estóicos “deve, quer queira ou não, necessariamente participar de uma constante alegria e felicidade que é profunda e parte de seu interior, já que encontra satisfação em seus próprios recursos, e não deseja felicidades maiores que suas felicidades interiores.” Além disso, comparados a estas felicidades, os prazeres da carne “são “insignificantes, triviais e fugazes.”

Em outra ocasião, encontramos Sêneca dizendo a seu amigo Lucílio que se ele deseja praticar o estoicismo, ele terá que se ocupar de “aprender a como sentir alegria.” Ele diz também que um dos motivos de querer que Lucílio pratique o Estoicismo é por não desejar que Lucílio “um dia seja privado da alegria.” Aqueles que estiverem acostumados a pensar nos Estóicos como um bando de melancólicos podem se surpreender com tais comentários, mas estas e outras afirmações deixam claro que a expressão “Felicidade Estóica” não é formada por palavras de sentidos opostos.

Caio Musônio Rufo, o menos bem conhecido dos quatro grandes Estóicos Romanos, nasceu por volta de 30 ad. Por causa da posição de sua família, Musônio poderia ter ido longe na política, mas ao invés disso ele deu início a uma escola de filosofia. Sabemos pouco sobre Musônio em parte por que ele, como Sócrates, não se incomodou a escrever seus pensamentos filosóficos. Felizmente, Musônio tinha um pupilo, Lúcio, Que fazia anotações durante as aulas.

Nestas anotações, Lúcio frequentemente começa falando sobre o que “ele”, Musônio, disse em resposta a alguma pergunta. Isto assim sendo indica que as palestras que Musônio dava em sua escola não eram monólogos; ao invés, ele entrava em uma conversação Socrática de duas vias com seus estudantes. É provável também que Musônio usava estas conversas tanto para instruir seus estudantes quanto para observar seus progressos filosóficos.

Musônio esteve no topo de sua fama e influência no tempo do Imperador Nero. Ele aparentemente se aliou com os inimigos de Nero - ou ao menos, com pessoas que Nero tinha como inimigas. Nero o aprisionou e em seguida o baniu. (De acordo com Tacitus, a razão real pela qual Nero baniu Musônio foi sua inveja pela  fama de Musônio como filósofo.)

CAIO MUSÔNIO RUFO

O banimento de Musônio foi particularmente brutal, como banimentos costumam ser. Em 65, ele foi mandado para a ilha de Gyara (ou Gyaros) nas Cíclades, um grupo de ilhas no sudoeste da Grécia no Mar Egeu. A ilha era desoladora, sombria, rochosa e quase sem água. O geógrafo grego e historiador Strabo a descreve como “Inútil,” e Sêneca a menciona em sua lista dos piores lugares para onde ser banido. (Esta ilha, interessantemente, continuou sendo usada como local de banimento no século 20;  foi para onde os generais gregos mandaram seus oponentes políticos no início dos anos 70.)

Ao ser exilado, então, Musônio não entrou em desespero. Ele tomou um interesse sobre Gyara e seus habitantes, em sua maioria pescadores. Ele então descobriu uma fonte na ilha e a tornou mais habitável. E qualquer que seja a solidão que ele passou ela foi aliviada pelo fluxo de discípulos filosóficos.

Após a morte de Nero, Musônio retornou a Roma. Não muito após isso, o então Imperador Vespasiano baniu todos os filósofos de Roma mas parece ter isentado Musônio. Depois, então, Musônio foi novamente exilado. Ele morreu por volta do ano 100.

De acordo com Musônio, nós devemos estudar filosofia, já que de qual outra maneira podemos esperar viver bem? Além disso, ele diz que estudar filosofia pode nos afetar pessoal e profundamente; na verdade, quando um filósofo dá aula, suas palavras devem fazer com que aqueles na platéia estremeceram e se sentirem envergonhados, e quando ele acabar de falar, eles devem, ao invés de aplaudí-lo, se reduzir ao silêncio. De acordo com Epiteto, Musônio pessoalmente tinha a habilidade de reduzir sua platéia ao silêncio, pois quando falava, seus ouvintes se sentiam como se estivessem descobertos e nus suas características das quais eram secretamente envergonhados. Musônio também pensava que a prática da filosofia não queria que alguém se afastasse do mundo, como os Epicuristas aconselharam, mas que se tornasse um vigoroso participante de seus eventos. Musônio então ensinou a seus estudantes a como manter sua Tranquilidade Estóica enquanto participavam. Além de pensar que a filosofia deveria ser prática, Musônio pensava que o estudo da filosofia deveria ser universal.

De fato, ele argumentou que tanto mulheres quanto homens “receberam dos deuses o mesmo poder de raciocínio.” Consequentemente, mulheres, como os homens, podem se beneficiar da educação e do estudo de filosofia. Por ter tido estes pontos de vista naquela época, Musônio foi aplaudido pelas mulheres modernas.

Epiteto, o mais famoso dos estudantes de Musônio, nasceu sob a escravidão em algum momento entre os anos de 50 e 60. Ele foi subsequentemente adquirido por Epafrodito, secretário do Imperador Nero e depois por Domiciano. Isto deu a Epiteto exposição a corte imperial. Isto também significou que Epiteto, apesar de escravo, foi um “escravo de colarinho branco”. Os romanos valorizavam escravos que demonstravam sinais de inteligência e iniciativa. Eles os treinavam para que pudessem fazer o melhor uso de seus dons, e então subsequentemente colocavam estes escravos para trabalharem como professores, conselheiros, e administradores.

Epiteto aparentemente desenvolveu um interesse em filosofia cedo na vida. Quando jovem, nos é contado, ele andava perguntando para as pessoas se a alma delas era saudável. Se elas o ignorassem, ele persistia em perguntar até que elas o ameaçassem com agressões. Este comportamento, certamente, sugere que Epiteto foi inicialmente atraído para o Cinismo, ao invés do Estoicismo; os Cínicos, como já vimos, proselitizavam de uma maneira que os Estóicos não faziam. mesmo em sua filosofia mais madura, nós podemos encontrar evidências de seu respeito pelos Cínicos.

Após a morte de Nero, Epiteto aparentemente ganhou a liberdade. Ele iniciou uma escola de filosofia, mas foi subsequentemente banido, junto com todos os outros filósofos de Roma, por Domiciano. Ele levou sua escola para Nicópolis, no que hoje é a Grécia Ocidental. Após o assassinato de Domiciano, o Estoicismo obteve novamente sua respeitabilidade e até se tornou moda entre os romanos. Epiteto era nesta época o principal professor Estóico. Ele poderia ter retornado a Roma, mas escolheu permanecer em Nicópolis. Sua escola, apesar de sua localização, atraiu estudantes de todo o Império Romano.

De acordo com o classicista Anthony A. Long, Epiteto esperava que seu pupilos satisfizessem duas condições: “vontade de se beneficiar com a filosofia e o entendimento sobre o que o comprometimento com a filosofia implicava.” Epiteto sabia que suas palavras seriam desperdiçadas em estudantes que ainda não reconhecessem suas próprias inadequações ou que não estivessem dispostos a dar os passos necessários para lidar com elas. Ele descreveu seu pupilo ideal como alguém que ficaria satisfeito se pudesse “viver desimpedido e sem problemas,” como alguém que busca estar “tranquilo e livre de turbulências.”

O  que estes estudantes podiam esperar de uma das aulas de Epiteto não era uma comunicação de via unica, de Epiteto para seus estudantes, sobre teorias filosóficas esotéricas. Ao contrário, ele queria que seus estudantes levassem suas aulas de maneira pessoal.

Ele queria que suas considerações tivessem efeitos pessoais. Ele, assim sendo, dizia a seus estudantes que uma Escola Estóica deveria ser como um consultório médico e que seus pacientes deveriam sair dali se sentindo mal ao invés de se sentindo bem, a idéia sendo que qualquer tratamento para curar um paciente também o causaria disconforto.

Suas aulas eram assim sendo, de acordo com Long, “Lições dialéticas - convites para que seus alunos examinassem a si mesmos.” De acordo com Epiteto, a preocupação principal da filosofia deveria ser a arte de viver: Assim como a madeira é o meio do carpinteiro e o bronze é o meio do escultor, sua vida é o meio com o qual você pratica a arte de viver.

Além disso, assim como um mestre carpinteiro ensina um aprendiz lhe mostrando técnicas que podem ser usadas para construir coisas de madeira, Epiteto ensinou seus estudantes a arte da vida lhes mostrando técnicas que podiam ser usadas para fazerem algo com suas vidas. As técnicas em questão eram bastante práticas e completamente aplicáveis ao dia a dia dos estudantes. Eles os ensinou, entre outras coisas, como responder a insultos, como lidar com servos incompetentes, como lidar com um irmão raivoso, como lidar com a perda de um ente querido, e como lidar com o exílio. Se eles pudessem aperfeiçoar estas técnicas, prometeu Epiteto, eles poderiam experimentar uma vida cheia de propósito e dignidade, e mais importante, eles poderiam alcançar a tranquilidade. Além disso, eles poderiam alcançar sua dignidade e tranquilidade independentemente das dificuldades que a vida poderia subsequentemente os infligir.

Aqueles que lêem Epiteto não conseguem evitar perceber suas frequentes menções a religião. Realmente, Zeus é mencionado mais que qualquer um exceto Sócrates. Para entender melhor o papel de Zeus no Estoicismo, considere a situação de um candidato a pupilo da escola de Epiteto. Se esta pessoa perguntasse o que alguém deve fazer para praticar o Estoicismo, Epiteto poderia descrever as várias técnicas que os estóicos advogam. Se ela perguntasse por qual motivo ele deveria praticar estas técnicas, Epiteto responderia que fazendo isso ele poderia alcançar a tranquilidade.

Até aqui, tudo certo, mas suponhamos que este estudante tivesse observado outras escolas de filosofia e se questionado por qual motivo a escola de Epiteto era melhor que as outras. Suponhamos, mais precisamente, que ele perguntasse a Epiteto por qual razão ele pensava que as técnicas advogadas pelos estóicos poderiam lhe fazer alcançar a tranquilidade. Em resposta a esta questão, Epiteto poderia começar a falar sobre Zeus.

Nós somos, ele poderia dizer ao estudante, criados por Zeus. Seu estudante provavelmente aceitaria esta premissa, afinal o ateísmo parecia ser uma raridade na Roma antiga. (Então, o que Epiteto teria em mente quando se referiu a Zeus era provavelmente diferente do que a maioria dos Romanos tinham em mente. Em particular, é possível que Epiteto identificasse Zeus com a Natureza.) Epiteto então seguiria a explicar que Zeus nos fez diferentes de outros animais em um importante aspecto: Nós somos racionais, como são os deuses. Somos portanto um curioso híbrido, meio animal e meio deus.

Zeus, portanto, é um pensativo, gentil, e amável deus, e quando nos criou, tinha a melhor das intenções em mente. Porém, infelizmente, ele parece não ser onipotente, pois ao nos criar, existiram limites no que ele pôde fazer. Em seus Discursos (livro), Epiteto se imagina tendo uma conversa com Zeus, na qual Zeus explica seu dilema nos seguintes termos: “Epiteto, se fosse possível eu teria feito tanto seu corpo frágil e sua pequena existência livre e desimpedida… Porém não podendo fazer isso, lhe dei uma certa parcela de si mesmo, estas faculdades de de escolha e recusa, de desejo e aversão” Ele complementa que se Epiteto aprender a fazer o uso correto destas faculdades, ele jamais se sentirá frustrado ou insatisfeito. Ele irá, em outras palavras, adquirir sua tranquilidade - e até mesmo experienciar a felicidade - independentemente dos golpes que o Destino lhe aplicar.

Em outro lugar em seus Discursos, Epiteto sugere que mesmo que Zeus pudesse nos fazer “Livres e desimpedidos” ele teria escolhido não fazê-lo. Epiteto nos apresenta a imagem de Zeus como um treinador de atletas: “São as dificuldades que revelam quem são os homens. Consequentemente, quando uma dificuldade se apresenta, lembre-se que Deus, como um treinador físico, lhe colocou para lutar contra um homem jovem e forte.” Por qual motivo fazer isso? Para lhe endurecer e fortalecer, para que se torne “um campeão Olímpico” - Em outras palavras, para que você tenha a melhor vida possível. Sêneca, por outro lado, argumentava em linhas similares: Deus, ele dizia, “não trata um bom homem como um animal de estimação mimado; ele o testa, o endurece, e o prepara para seu próprio dever.” Em particular, as adversidades que experienciamos contam como “mero treino” e “as coisas pelas quais estremecemos e trememos são para o próprio bem das pessoas que nos tornaremos.”

Epiteto poderia então dizer ao candidato a estudante que se ele deseja ter uma boa vida, ele deveria considerar sua natureza e o propósito para o qual Deus o criou e vivesse de acordo; ele deveria, como Zenão diria, viver de acordo com a natureza. A pessoa que faz isso não persegue o simples prazer, como um animal faria, pelo contrário, ela irá usar sua habilidade de raciocínio para refletir sobre a condição humana. Ela então irá descobrir a razão pela qual fomos criados e o papel que desempenhamos no esquema cósmico. Ela perceberia que para ter uma boa vida, ela precisa performar bem a função de um ser humano, a função que Zeus lhe designou para preencher. Ela irá então procurar a virtude, no antigo sentido da palavra, significando que ela irá se esforçar para se tornar um excelente ser humano. Ela também irá descobrir que se viver de acordo com a natureza, será recompensada com a tranquilidade que Zeus nos prometeu.

Esta explicação pode ter satisfeito as pessoas nos tempos de Epiteto, porém provavelmente se tornaria distanciadora para indivíduos modernos, cujos quais nenhum acredita na existência de Zeus, e muitos quais não acreditam que somos criados por um ser divino que desejava o nosso bem. Muitos leitores irão, assim sendo, a este ponto, estar pensando, “Se eu tiver que acreditar em Zeus e em uma criação divina para praticar o Estoicismo, então o Estoicismo não é para mim.” Os leitores devem, assim sendo, entender que é inteiramente possível praticar o Estoicismo - e em particular, aplicar estratégias estóicas para alcançar a tranquilidade - sem acreditar em Zeus ou, neste sentido, na criação divina. No capítulo 20 será melhor detalhado como isso pode ser feito.

“Inicie cada dia dizendo a si mesmo: Hoje irei me deparar com interferência, ingratidão, insolência, deslealdade, má vontade e egoísmo - tudo isso devido a ignorância dos ofensores sobre o que é bom ou mal.” Estas palavras não foram escritas por um escravo como Epiteto, a quem poderíamos naturalmente esperar se deparar com insolência e má vontade; elas foram escritas pela pessoa que foi naquele tempo o mais poderoso homem do mundo: Marco Aurélio, Imperador de Roma.

Por ter sido uma pessoa importante, nós sabemos mais sobre Marco do que sobre qualquer outro estoico romano. Nós também temos uma visão não usual de seus pensamentos, graças a correspondência que ele tinha com seu tutor, Cornélio Frontão, e graças, também, as suas Meditações (livro), nas quais ele reflete sobre a vida e suas respostas a ela.

Marco nasceu em 121 d.C. Ele aparentemente tomou interesse em filosofia em sua juventude. Um biógrafo o descreve como “uma criança insolente” e relata que “logo que ele ultrapassou a idade em que crianças eram cuidadas por enfermeiras, ele foi entregue a instrutores avançados e alcançou conhecimento em filosofia.” Aos doze anos Marco foi ensinado pelo pintor e filósofo Diogneto, e começou a experienciar algo como o Cinísmo: Ele vestia roupas grosseiras e começou a dormir no chão. Sua mãe então o convenceu a dormir em um sofá forrado de peles.

Quando adolescente, Marco estudou com o filósofo estóico Apolônio Chalcedon. De acordo com Marco, foi Apolônio que imprimiu nele a necessidade de ser decisivo e razoável, o ensinou como combinar dias cheios de atividade intensa com períodos de relaxamento, e o ensinou a, “com a mesma postura inalterada,” suportar a doença e a dor - e em particular, Marco notou, como suportar a angústia mental que ele mais tarde sofreu com a perda de um filho.

Outra importante influência sobre Marco foi Quinto Júnio Rústico, quem, significantemente, emprestou a Marco uma cópia dos Discursos de Epiteto. Epiteto então se tornou a mais importante influência sobre Marco.

Como Epiteto, Marco foi muito mais interessado na ética estóica, - em, isto é, sua filosofia de vida - do que na física ou lógica estóica. Realmente, em Meditações (livro) ele afirma que é possível alcançar “liberdade, auto respeito, altruísmo, e obediência a vontade de Deus” mesmo sem termos nos especializado em lógica e física.

Quando Marco tinha dezesseis anos, o Imperador Adriano adotou seu tio maternal, Antônio, que por sua vez adotou Marco. (O pai de Marco morreu quando ele ainda era muito jovem.) No tempo em que Marco adentrou a vida palaciana, ele obteve poder político, e quando Antônio se tornou Imperador, Marco serviu como co-imperador virtual. Ele não deixou que o poder lhe subisse à cabeça, apesar que, durante seus treze anos em que atuou como tenente chefe de Antônio, nunca deu a impressão ao povo de que ansiava pelo poder. Além disso, quando Antônio morreu e Marco assumiu o poder, ele indicou Lúcio Vero como Imperador adjunto. Esta foi a primeira vez que o Império Romano teve dois Imperadores.

IMPERADOR MARCO AURÉLIO NO FILME "GLADIADOR"

Como Imperador Romano, Marco foi excepcionalmente bom. Acima de tudo, ele exerceu uma grande contenção em seu uso do poder. Nenhum outro imperador, assim sabemos, demonstrou maior respeito pelo senado que Marco. Ele cuidou para que não se desperdiçasse dinheiro público. E mesmo não necessitando pedir permissão ao senado para gastar dinheiro, ele rotineiramente o fazia, e em um discurso os lembrou que o palácio imperial em que vivia não era seu, mas deles. Para financiar guerras, ele leiloou posses imperiais, incluindo estátuas, pinturas, vasos de ouro, e algumas das jóias e roupas de sua esposa, a fim de não aumentar os impostos.
Marco, escreveu o historiador Edward Gibbon, foi o último dos Cinco Bons Imperadores (os outros quatro sendo Nerva, Trajano, Adriano e Antônio) que reinaram de 96 - 180D.c. e trouxeram “o período na história do mundo durante o qual a condição da raça humana foi mais feliz e próspera” Este período, escreveu o historiador do século dezenove W.E.H Lecky, “exibiu uma uniformidade de boa governança que nenhum outro monarca despótico se igualou. Cada um dos cinco imperadores que então reinaram merecem ser colocados entre os melhores governantes que já viveram.” Marco é, em outras palavras, um raro exemplo de rei filósofo e talvez o único exemplo de filósofo a quem os súditos queriam ter como rei.

Como os outros Estóicos Romanos, Marco não se sentiu compelido a provar quer valia a pena procurar a tranquilidade. Ao contrário, ele pensava que seu valor era óbvio. E se alguém tivesse dito a Marco que pensava que a vida mortal poderia oferecer algo melhor que “paz de espírito,” Marco não tentaria persuadi-lo do contrário; Ao invés, ele poderia aconselhar este indivíduo a perseguir esta coisa em questão “com toda sua alma, e rogojizo no prêmio que foi encontrado.”

Como um adulto, Marco tinha grande necessidade da tranquilidade que o Estoicismo podia oferecer. Ele adoeceu, possivelmente de uma úlcera. Sua vida familiar era uma fonte de estresse: Sua esposa aparentemente lhe foi infiel, e de pelo menos quatorze crianças que ela concebeu, apenas seis sobreviveram. Adicione-se a isso os estresses que vinham com o reinado do império. Durante seu reinado, houveram muitas revoltas nas fronteiras, e Marco muitas vezes foi pessoalmente gerir as campanhas contra as tribos revoltosas. Seus próprios oficiais - mais notavelmente, Avídio Cássio, o governador da Síria - se rebelou contra ele. Seus subordinados eram insolentes com ele, a qual insolência ele suportava com “uma paciência inabalável.” Os cidadãos faziam piadas a suas custas e não eram punidos por o fazerem. Durante seu reinado, o império sofreu com a praga, a fome e disastre naturais como o terremoto em Smyrna. Foi desta forma com bom raciocínio que Marco observou, em suas Meditações, que “a arte da vida é mais como um combate que como uma dança.”

O historiador romano Dião Cassio resumiu a situação difícil de Marco da seguinte maneira: “Ele não se deparou com a boa sorte que merecia, pois não tinha boa saúde e foi envolvido numa multidão de problemas praticamente através de todo seu reinado. Mas de minha parte, o admiro ainda mais por estas razões, pois em meio a unusuais e extraordinárias dificuldades ele tanto sobreviveu quanto preservou o império.” Dião ainda diz que de seus primeiros dias como conselheiro de Antônio até seus ultimos dias como Imperador, “ele se manteve o mesmo e não mudou em nada.”

Em 180D.c, Marco ficou seriamente doente. Ele se recusou a comer ou beber numa tentativa de acelerar a morte. Ele morreu em 17 de março daquele ano, aos 58 anos. Sua morte provocou uma crise de luto público. Seus soldados em particular ficaram profundamente marcados por sua morte. Da mesma forma como a conversão do imperador Constantino foi um marco para o Cristianismo, o Estoicismo de Marco foi um marco para esta filosofia. Marco, no entanto, não pregava o estoicismo. Ele não dava aulas a seus companheiros romanos sobre os benefícios da prática do estoicismo; nem mesmo os expôs a seus escritos filosóficos. (As Meditações eram um diário privado - o título original era algo como “Para Eu Mesmo” - e só foi publicado após a morte de Marco.) E apesar do interesse de Marco em estoicismo ter feito muitos romanos se identificarem como estóicos, presumivelmente para homenageá-lo, isso não disparou um interesse geral sobre a filosofia. De certa maneira, então, Marco representa o ponto alto do estoicismo.

Que o estoicismo já viu dias melhores é óbvio. Durante o curso da sua vida você já encontrou pelo menos um praticante do estoicismo? É tentador atribuir o declínio em popularidade a alguma falha na filosofia estóica. E gostaria de sugerir, porém, que a impopularidade do estoicismo não recai sobre a filosofia, mas sobre outros fatores. Um deles é que, indivíduos modernos raramente enxergam a necessidade de adotar uma filosofia de vida. Eles ao invés disso tendem a passar seus dias trabalhando duro para serem capazes de comprar as bugigangas consumistas mais atuais, na crença resoluta de que apenas se comprarem coisas suficientes ele terão uma vida que é tanto cheia de significado quanto completamente satisfatória. Além disso, mesmo que estes indivíduos descubram que existe mais na vida que fazer compras, eles muito provavelmente não irão, em sua busca por uma filosofia de vida, escolher o Estoicismo. Ou eles não terão idéia do que fazer para praticar o Estoicismo, ou - mais provavelmente - ele terão a idéia errada sobre ele. Permitam-me, assim sendo, como parte de minha tentativa de reanimar o Estoicismo, explicar, nos capítulos que se seguem, o que, exatamente, está envolvido na prática desta filosofia.

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*Este texto se trata de uma tradução.



De seu lorde, senhor e majestade imperial. Tirano

6 comentários:

  1. aeee passando conteúdo cultural agora rsrsrs que paciência !

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    1. Assim aprendo sobre filosofia e aprimoro meu inglês, rs!
      Abraço!

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  2. Fala Tirano! Post show, me sinto um burraldo kkkkk brincadeiras à pare, realmente é de se pensar e meditar a respeito. Um abraço!

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  3. Continue postando,meu caro.

    Cai no seu blog porque estava pesquisando sobre o estoicismo.
    a filosofia estoica e ótima e eu pretendo adotá-la

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