ORGULHO DE SER FAVELADO (?)

O RETRATO REAL E FEIO PRA CARALHO DAS PERIFERIAS QUE O PROGRAMA ESQUENTA NÃO MOSTRA.

QUE PORRA É ESSA...
Tá, tá, tá, vamos parando com essa porcaria de choro e ir baixando logo a bola de quem já estava se coçando antes mesmo de ler o texto pra me chamar de burguesinho que mora em apartamento de luxo com piscina se baseando apenas no título, pois eu sou o primeiro a admitir, sem vergonha alguma, que moro em uma favela. Porém, e este é o ponto deste texto, não ter vergonha de admitir este fato é muito diferente de ter orgulho da situação.

Obviamente não darei a localização de meu Quartel General de resistência contra os horrores do Politicamente Correto, porém posso descrever seus arredores para que você sinta o drama, entre o sucesso e a lama.

Vivo em uma periferia do estado de São Paulo, mas apesar da cidade em si não ser a capital também não é interiorana, sendo apenas uma espécie de extensão da metrópole com outro nome. O centro da cidade, assim como o de qualquer outra cidade grande é constituído por uma área relativamente plana, com grandes rodovias, avenidas, áreas industriais muito bem desenvolvidas dentro do possível e áreas comerciais enormes com shopping centers (pelo menos 3 grandes) e algumas áreas de lazer. No entanto é a área que cerca estes centro que nos interessa e de onde sou habitante.

A periferia da cidade tem seu relevo muito acidentado e constituído quase que inteiramente de morros, mas não morrinhos como temos em Minas Gerais (tipo aqueles do plano de fundo mais conhecido do Windows XP) onde os boizinhos comem capim na sombra de árvores simpáticas e por onde se estendem as plantações de café, mas sim crateras dignas de terem se formado durante a queda de METEOROS na pré-história e paredões de montanha que te fazem imaginar estar no fundo do Grand Canyon olhando pra cima de tão íngremes. E adivinha onde e de que forma as casas são construídas... lógico que num amontoado, casas sobre casas com becos, escadarias e vielas que interligam tudo, um verdadeiro formigueiro humano.

Se o problema todo da favela fosse apenas o visual tudo bem, ninguém é obrigado a achar que as coisas tem que ser minimamente bem cuidadas e organizadas como eu penso, mas o problema maior é a cultura das pessoas que ali habitam.

A VISTA ONDE MORO É QUASE ASSIM

Apesar de existirem áreas melhor construídas e planejadas costumo dizer que moro nos Portões do Inferno, pois se já considero o bairro onde moro ruim em todos os aspectos, incluindo limpeza pública, segurança, conservação e facilidade de acesso por ter planejamento urbano quase nulo, pelo menos o lugar é asfaltado, tem energia elétrica, chegam correspondências e internet (lixo de 1 Mega no máximo chorando, mas chega né...). 

Numa escala de 0 a 100 onde 0 é o local desta imagem ao lado e 100 é aquele estilo americano classe média de casinhas com gramado em volta e com ruas todas bem organizadinhas o local onde vivo fica com nota 30, mas logo após a rua onde vivo cerca de uns 100 metros da minha casa se inicia uma fatídica curva, e de lá em diante é que o bicho pega e a nota cai para -10 pois nem pintadinhas assim as moradias são, deixando o ambiente com um ar depressivo. 

Barracos de madeira, trilhões de gatos de energia nos postes, casas de alvenaria mal acabadas só no reboco, quando muito, e com uma arquitetura digna daquela favela que existe em volta da cidade de Midgard em Final Fantasy VII.

Não que a minha casa seja uma mansão, mas ao menos tem planta e é pintada por fora apesar de terem pichado o muro com a frase “Vagabundo também ama”... mas que filhos da puta!

Até pouco tempo atrás ninguém lá pagava contas de aguá ou luz, não por falta de dinheiro, pois tênis Nike de 357 molas no pé, carros rebaixados, televisão de plasma e aparelhos de som potentes para tocar rap, funk e forró no ultimo volume nunca faltam, mas quando faltava energia elétrica ou àgua por determinado período de tempo já era suficiente para que os moradores fizessem barricadas na rua, queimassem pneus e o escambau. Inclusive a poucos meses atrás quando agentes da prefeitura vieram instalar iluminação pública nas vielas e legalizar os relógios de luz para que as contas chegassem e cada um pagasse a sua foi uma guerra, Até fogo meteram na rua impedindo os carros de passar (bem na hora que eu ia chegando em casa cansado e fodido do trabalho e tive que dar uma volta de 20 minutos pra chegar em casa pelo outro lado... FILHOS DA PUTA DE NOVO...) e a polícia foi chamada pra resolver, e mesmo resolvendo tudo na paz explicando que é ilegal bloquear vias e liberando o fluxo de carros ainda saíram sob gritos e xingamentos...

Assim como o problema do Brasil é o brasileiro, o problema da Favela é o favelado.

Certas vezes aos fins de semana quando o tempo está ensolarado e tenho tempo durante o dia costumo tentar tomar um pouco de sol pra não criar mofo, então saio pra fora de casa e as cenas que vejo lá fora são quase sempre as mesmas: Tiazinhas filhas da puta que jogam resto de comida direto no esgoto e depois reclamam que tem ratos correndo pela vizinhança, esquadrões de moleques magros sem capacete e sem camisa mostrando tatuagens pela metade (aliás que porra é essa que esses imbecis gostam tanto de tatuar coroas e diamantes no corpo ?) andando de moto em grupos pra cima e pra baixo com seus óculos de funkeiros parecendo besouros e fazendo um barulho infernal estalando aquelas porras de escapamentos; garotas em idade de ensino médio andando com seus shortinhos socados no fundo do útero, em bandos de pelos menos três agarradas umas nas outras enquanto conversam sobre alguns dos moleques que estão andando nas motos ou sobre algum outro rolo fútil que estejam tendo, isso quando não estão carregando e brigando com os filhos que carregam no braço né. 

E quando está frio pra cacete, sabe o que muda ? Nada, nem os atores nem o figurino, no máximo os moleques das motos colocam uma regata...


TUDO SERTO E NADA REZOLVIDO NÉ PARÇA

A grande maioria dos adultos é trabalhadora sim, nota-se pelos pontos de ônibus lotados pela manhã, mas se o são também não passa disso, pois em sua maioria são acomodados com a situação que vivem por todos os motivos que eu tanto bato na tecla aqui na maioria dos textos que escrevo: são financeiramente relaxados torrando tudo que ganham mesmo que seja pouco em hedonismos; não tem a menor intenção de sair da favela para um lugar melhor através de seu próprio esforço e vivem no máximo aguardando algum “Minha Casa Minha Vida” que os dê algum apartamentinho de mão beijada. Aliás, por aqui até existe um conjunto habitacional nestes moldes e sabe o que andou acontecendo? As pessoas que receberam os imóveis os vendem por valores ridículos e voltam pra favela, e os que lá ficam não preservam em nada aquilo que receberam e transformam os pequenos condomínios, mesmo que outrora muito simples e dignos, em Favelas Verticais, pichando, derrubando grades e destruindo quase tudo a sua volta.

Prosseguindo o raciocínio, os suburbanos/favelados não educam os filhos como deveriam, deixam a rua criar pra depois ir chorar em cima do caixão do filho crivado de balas pedindo justiça, e na maioria das vezes ter um filho na faculdade só é motivo pra esfregar na cara das vizinhas ou dos parentes o quanto seu bebê é especial e o dos outros não é. 


Diálogo comum:

“Nossa Neidinha, nem te conto muiéééé, meu fí, o Jéberson, tá cursando administração na Uniesquina, conseguiu o PróUni, já já ele tá saindo lá da fabrica de coxinha e vai andar de só de roupa social, daqui uns dias arruma até uma namorada dos olhos verdes! Vou até lá na igreja pagar a promessa que fiz, tomara que eu não cruze com a dona Zequinha lá, aquela véia escrota chifruda. Tú fico sabendo muié que ela pegou o marido dela na cama com a Jacinta lá do fim da rua e bla,bla,bla...”

Não tem grandes noções sobre moral, são religiosos apenas por achar que existe um inferno que pode ser pior que a vida atual, mas mesmo assim só seguem aquilo que acham conveniente dentro da religião; não tem cultura nenhuma a não ser fazer auto-hipnose diária em frente a uma televisão observando a vida real ou fictícia dos famosos em novelas e programas de fofocas (coisa que até pessoas em melhores condições de vida também fazem, infelizmente) na busca por se anestesiar; etc, etc e etc que você ai já deve estar cansado de saber e ver ao seu redor. A quantidade de pequenos botecos feitos em garagens ou salões em frente as casas cheios de homens sem rumo que se aglomeram em volta de mesas de jogo ou bebida são enormes. Será que eles lembram que tem família em casa ?

Fora isso existe também o problema da criminalidade que é maior ainda que a ignorância. É tido como normal ter que conviver com bocas de fumo, um ou outro viciado loucão andando pelas ruas, furtos e comercialização de pequenos pertences para sustentar os vícios, e as pessoas convivem com isso com certa naturalidade, como se não houvesse nada que pudesse ser feito. Por outro lado os próprios traficantes adotam a “comunidade” com algo que eles dizem proteger. Já ouviu falar de casos onde ao invés de procurar a ajuda da polícia, até mesmo depois de um ESTUPRO COLETIVO, as vítimas vão pedir socorro aos traficantes? Então, o que algumas vezes acaba existindo é uma espécie de Síndrome de Estocolmo entre a população e os traficantes que se transvestem de protetores da comunidade e em contra-partida são protegidos também, recebendo avisos quando a polícia chega por exemplo.

Agora após toda essa descrição, que muito provavelmente não descreveu nem a metade dos problemas de se viver em um ambiente assim vem a pergunta: 


Como ter orgulho da favela?


Ao que me consta devemos ter orgulho de nossas conquistas, de avanços e de descobertas, então como é possível as pessoas abrirem a boca pra dizer que tem orgulho de não ter vontade de sair de um local tão perigoso, tão precário e de serem tão acomodadas com a situação ? Nascer numa favela ou na pobreza é um azar, mas permanecer nela por falta de ação e usar um pretenso orgulho como desculpa é irresponsabilidade e escrotice. 

Na minha concepção é o mesmo que ter orgulho de se foder...


FILMES QUE ROMANTIZAM A VIDA DA VAGABUNDAGEM
Ai, claro, como não poderia deixar de ser, pra fechar o caixão com pregos de ouro e chuva de confete colorido vêm o governo, a televisão e a classe artística em massa para glorificar toda esta esbórnia através de programas sociais de incentivo a proliferação de subculturas como o Funk com músicas que idolatram o estilo de vida baseado na vontade de adquirir bens e luxos que estão muito longe da realidade dos pobres, da produção de filmes nacionais que expõem de maneira poética e romântica a vida dos criminosos e de programas de televisão dedicados unica e exclusivamente a martelar na cabeça da audiência acéfala o quanto é lindo e maravilhoso ser pobre e morar em comunidades ou favelas como as do Rio de Janeiro com suas vielas pintadas, todas muito coloridas e alegres, mas sem o mínimo de saneamento básico e que servem de redutos de tráfico de drogas, corrupção de menores e muito mais. 

Os movimentos sociais então... fazem a festa pintando os pobres das periferias como coitadinhos oprimidos em nome do apelo emocional que isso causa, até mesmo os defendendo como vitimas quando fazem merda como matar ou sequestrar, os chamando "vitimas do sistema ou da sociedade capitalista" ignorando e cagando na cara das reais vitimas, como no recente caso de uma médica que morreu durante um assalto na linha vermelha. Ela como branca e de classe média não recebeu nenhuma homenagem ou protesto dos direitos humanos em sua memória, mas vai um policial matar um dos assassinos pra você ver, viraria mártir instantâneo.

Fazem até documentários glorificando a ações de pichadores os tratando como guerreiros das ruas e artistas incompreendidos quando na verdade essa cabada de safados só faz mesmo é detonar com o patrimônio dos outros sem autorização, rabiscando tudo com suas letras e simbologias ininteligíveis num frenesi tribal de luta por territórios e jogo de egos.   

Todo esse carnaval (incluindo o Carnaval) esconde por trás de si o único objetivo de fazer com que as pessoas se sintam confortáveis e com orgulho da deplorável situação em que se encontram.

É lógico que tem pobre que toma tiro de policial sendo inocente e é claro que existe a parte podre e corrupta da polícia que colabora e se alimenta da pobreza. Existe gente honesta que se fode de maneiras inimagináveis mesmo tentando sair da merda e trilhando um caminho de evolução, mas isso não pode nem deve ser usado como desculpa por aqueles que simplesmente são preguiçosos ou encostados na vida para continuar perpetuando a miséria e a covardia em seu tempo de vida e o de seus descendentes.



EU NÃO SEI... MAS PARECE SER BEM MAIS FÁCIL (E SEGURO)
SER UM "POBRE CAVIAR" DO QUE SER UM POBRE PADRÃO NÉ...
A pobreza imposta pela vida na juventude pode, algumas vezes, tornar o homem mais digno, centrado e ensina-lo quais são as coisas realmente importantes na vida, mas quando o tempo de pobreza se estende em demasia somado ao comodismo pode também, assim como a riqueza em excesso somada a futilidade, corrompe-lo e destruí-lo. 






Sem mais
De seu lorde e Senhor dos Guetos
Tirano



Ps.: A partir da semana que vêm os textos serão postados toda sexta feira às 12:00h !


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4 comentários:

  1. concordo com cada palavra sua,excelente texto e visão do assunto

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  2. Eu moro no subúrbio de uma cidade vizinha da capital paulista, sei como se sente. Mas evito falar mal do meu bairro perifento, afinal, foi o único lugar que me acolheu na minha vida. Nada dava certo, pagava aluguel, morei de favor, passei humilhações, mas no fim consegui minha casa própria, embora estseja em bairro pobre. Não acho que venci na vida (antes que algum hater me ataque) por apenas ter uma casa em uma favela, mas estou melhor do que há 10 anos atrás.

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    1. Só de você ter saído do aluguel e escapado das humilhações já é sinal de que não se conformava com a vida que tinha e o exclui do quadro que descrevi. Agora sobre falar mal, não acho que seja o caso,pois foi falado só a verdade, e pense bem, a favela só nos acolheu pois só tinha 2 alternativas: ou nos matavam quando nascemos ou nos lançavam ao espaço em capsulas estilo a do Goku, ai acabamos ficando por aqui mesmo kkkk.

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  3. Kkkkkkkkkkkkkkk, agora é lutar pra sair dela.

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